A Busca Pelo Propósito
Faz um tempo que não apareço por aqui. Mas, mais do que um simples retorno, este texto nasce como um exercício profundo do meu próprio kung fu... uma tentativa de compreender, pela escrita, o que a prática silenciosamente me ensina.
Nos últimos meses, não tenho conseguido ir ao Mo Gun com a frequência que gostaria, e isso vinha me deixando inquieto. Até que, enquanto esboçava as primeiras linhas deste texto, me veio à mente uma pergunta que certa vez Si Hing Guilherme me fez:
“Você sabe quando o kung fu começa?”
Na época, a pergunta me desconcertou. Mas, com o tempo, ela foi ganhando sentido. Hoje percebo com mais clareza algo que Si Fu costuma dizer sobre o kung fu como uma lente.
O kung fu é consciência.
Saber quando estamos enxergando o mundo por essa lente é essencial.
Nas últimas semanas, por questões de saúde e agenda, tenho praticado menos com meus irmãos kung fu e essa ausência me fez sentir certa “abstinência”, um vazio pela falta de troca e conexão.
Curiosamente, essa sensação me lembrou de algo que meu padrinho, ilustrador e grande mentor artístico, me disse quando comecei a desenhar profissionalmente:
“Na arte, você não precisa seguir regras, mas precisa ter propósito.”
Demorei anos para entender o que ele queria dizer. E foi o kung fu que me ajudou a compreender, de fato, essa ideia. Assim como em uma pincelada, em um traço de tinta ou na escolha de uma cor, cada movimento no desenvolvimento marcial e na execução do combate precisa ter um propósito claro.
Quando existe propósito, tudo se torna mais simples e mais verdadeiro.
Criei o hábito de praticar o Siu Nim Tau todos os dias: ao acordar e antes de dormir. No começo, fazia quase mecanicamente, sem compreender o sentido dessa rotina. Hoje percebo que pela manhã o Siu Nim Tau me desperta e traz foco, energia e disposição. À noite, ele me acalma e organiza meus pensamentos e sossega a mente.
Os movimentos são os mesmos, mas a energia e o propósito são completamente diferentes.
Chego ao fim desta breve reflexão com o desejo de voltar a escrever com mais constância, de alinhar ideias e confiar nos processos tanto na escrita quanto no kung fu.
O Ving Tsun tem me oferecido algo precioso: a oportunidade de mergulhar conscientemente nas mesmas questões que, antes, eu enfrentava de forma confusa e inconsciente.
Afinal, kung fu é isso... o cultivo da consciência em cada gesto, dentro e fora do Mo Gun.
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