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Reflexão, Movimento e Chum Kiu

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Recentemente tenho refletido sobre o ato de mover. Sem qualquer pretensão poética ou filosófica exagerada, mas a partir de uma perspectiva muito pessoal, percebo uma dificuldade concreta na execução das minhas próprias ideias. A ação...esse é o ponto sensível. É ali que mora o desafio. Paradoxalmente, o estudo e a prática do Chum Kiu têm sido grandes aliados nesse processo. A forma não é apenas uma sequência de movimentos... ela é um laboratório de intenção, estrutura e deslocamento consciente. Sempre me orgulhei de ser “o cara das ideias”. No entanto, o Kung Fu tem me mostrado, com precisão quase cirúrgica, que ideia sem execução é apenas um sonho frágil e sonhos frágeis não constroem habilidade e nem erguem castelos. Quando comecei a escrever este texto, minha intenção era falar sobre as dificuldades em dominar o Chum Kiu. Mas, ao entrar em ação, ao escrever, percebi algo maior: tudo é fluxo. Tudo é movimento. Até mesmo permanecer parado, quando feito de forma consciente,...

Shutdown, Kung fu, Ciclos

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Para quem não está familiarizado com termos do universo autista, vou falar brevemente sobre o shutdown e a disfunção executiva... dois dos meus maiores inimigos. O shutdown, ou desligamento, é um tipo de crise em que o cérebro simplesmente “buga”. No meu caso, sou levado ao limite das forças. Já as disfunções executivas dizem respeito à dificuldade em executar ações consideradas simples. Um exemplo disso é o quão penoso se torna iniciar uma atividade. O mais frustrante é que o desejo de realizar a tarefa continua vivo, mas parece que o corpo não pega no tranco. Pois bem. Recentemente tive uma crise muito forte, e a expressão “relaxar na crise” nunca fez tanto sentido. É um desafio complicado quando tudo o que se consegue fazer é buscar isolamento sensorial. Ainda assim, práticas como o Siu Nim Tao me ajudam a me autorregular. Isso me fez perceber a importância de viver com kung fu. Indo mais fundo, fez-me enxergar o quanto é essencial cultivar esse kung fu como ferramenta d...

Conectando Momentos

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Nesta sexta-feira, junto aos meus irmãos Kung Fu, nos reunimos com o Si Fu para um colóquio profundo sobre os aspectos budistas, taoistas e confucionistas presentes na prática do Ving Tsun. Si Fu compartilhou conosco um conhecimento tão rico que ainda reverbera dentro de mim enquanto procuro digerir cada ensinamento. O encontro terminou tarde, para mim, que moro longe do Mo Gun, o caminho de volta acabou se tornando uma extensão da experiência. Avançando pela noite silenciosa, no ônibus, senti uma paz curiosa... uma sensação de realização que dava ao movimento um sentido quase transcendental. Cheguei em casa no início da madrugada, cansado, mas pleno. Como sempre acontece após estar com o Si Fu, o corpo pode até sentir o peso, mas o espírito se eleva. No dia seguinte, hoje, não consegui ir ao aniversário de Si Fu. Não me sentia muito bem de saúde, e lembrando dos ensinamentos da noite anterior, preferi não forçar o movimento... deixar o fluxo seguir naturalmente. ...

A Busca Pelo Propósito

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Olá a todos. Faz um tempo que não apareço por aqui. Mas, mais do que um simples retorno, este texto nasce como um exercício profundo do meu próprio kung fu... uma tentativa de compreender, pela escrita, o que a prática silenciosamente me ensina. Nos últimos meses, não tenho conseguido ir ao Mo Gun com a frequência que gostaria, e isso vinha me deixando inquieto. Até que, enquanto esboçava as primeiras linhas deste texto, me veio à mente uma pergunta que certa vez Si Hing Guilherme me fez:  “Você sabe quando o kung fu começa?” Na época, a pergunta me desconcertou. Mas, com o tempo, ela foi ganhando sentido. Hoje percebo com mais clareza algo que Si Fu costuma dizer sobre o kung fu como uma lente. O kung fu é consciência. Saber quando estamos enxergando o mundo por essa lente é essencial. Nas últimas semanas, por questões de saúde e agenda, tenho praticado menos com meus irmãos kung fu e essa ausência me fez sentir certa “abstinência”, um vazio pela falta de troca e conex...

Breve Reflexão Sobre A Minha Guerra

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Escrever esse texto já começou sendo um desafio. A verdade é que o simples ato de organizar pensamentos e me expor para o mundo me deixa tenso. Relações sociais sempre foram um território de campo minado pra mim. Tenho uma habilidade quase automática de analisar tudo o que é dito ao meu redor. As palavras chegam, eu recebo, decupo, crio camadas, faço conexões… E no meio dessa tempestade de pensamento, acabo me perdendo. Viro um excelente ouvinte, mas um péssimo conselheiro. Fico preso na análise, congelado na teoria. No Ving Tsun, isso seria o equivalente à morte em combate. Pensar demais no meio da ação significa perder o momento. E perder o momento significa ser atingido. Por isso, venho me propondo um desafio muito maior do que acertar uma técnica ou corrigir uma base: o desafio de me colocar. Me colocar no mundo, na conversa, na troca, mesmo quando não me sinto pronto. Principalmente quando não me sinto pronto. No último sábado, minha amiga Vitória foi ao Mo Gun nos vis...

Se apoiando no potencial da situação

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Ontem, durante o treino, algo me chamou atenção de forma especial. Foi como um convite silencioso para olhar mais fundo. A grande lição da noite talvez seja essa: abraçar o potencial da situação em que estou inserido, seja ela qual for. Confesso que ainda tropeço em algumas questões. Coordenar o corpo como uma unidade completa ainda é um desafio constante. Um pé enraizado, por exemplo, de nada serve se o restante do corpo não estiver em harmonia. Cada ajuste, cada tentativa, me faz perceber o quanto o Ving Tsun é um sistema que nos seduz justamente por esses detalhes. É um jogo de percepção, de sensibilidade, de presença. O Chi Sao tem sido o palco onde essas lições ganham intensidade. Não é apenas sobre força, técnica ou reflexo. É sobre percepção total. Meu posicionamento, o do meu parceiro, os espaços, os vazios, os contatos e as intenções ocultas em cada movimento. Tudo isso exige um tipo de concentração que vai além da simples atenção. É um trabalho fino de...

O Desejo Por Estar Inteiro

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Com o tempo, o Kung Fu deixou de ser apenas uma prática física pra mim. Ele virou um potencializador. Um catalisador de sistemas internos que hoje se espalham por todas as áreas da minha vida. Percebi que o que me prende a essa arte não é só o desafio técnico ou o desejo de "vencer". É a estrutura. A busca constante. A forma como o Ving Tsun sempre esteve ali, mesmo quando eu não tinha clareza do que estava buscando. Toda vez que precisei de um chão, de um norte, ele me ofereceu. Tem gente que olha de fora e pensa que é só luta. Mas pra mim, o que fica são as camadas invisíveis: os aprendizados, os erros, os pequenos acertos e as muitas reflexões que surgem entre um movimento e outro. Confesso: nunca fui exatamente um mestre na arte de socializar. Pode ser coisa da minha cabeça, um padrão que eu mesmo criei… ou simplesmente uma limitação que veio de outros fatores. Mas o Mo Gun, o convívio com a Família Kung Fu, foi me mostrando que essa história tem n...