O Kung Fu da Essência
O Ving Tsun nos ensina a não desperdiçar energia, a buscar a eficiência máxima e a encontrar equilíbrio em meio ao caos. Mas há algo ainda mais profundo nesse caminho: o encontro com quem realmente somos. Para mim, essa jornada sempre esteve ligada ao autismo.
Por muito tempo, tentei me encaixar em moldes que não foram feitos para mim. O mundo exige máscaras, papéis sociais, padrões de comportamento. No entanto, com o tempo, percebi que essas máscaras não eram escudos, mas prisões. O kung fu me ajudou a enxergar isso. Quando finalmente escolhi me respeitar, sem perder minha essência, compreendi que existe muito kung fu nessa jornada.
A sociedade tende a ver o autismo de maneira reducionista. Ou somos gênios excêntricos ou pessoas incapazes. Entre esses extremos, a verdade se perde. Mas, assim como no Ving Tsun, a realidade não é feita de dualidades simples. Assim como um Siu Nim Tao bem treinado, que parece pequeno mas contém tudo, a mente autista tem nuances que, quando bem direcionadas, se tornam uma força imensa.
O hiperfoco, por exemplo, antes era algo caótico, um turbilhão de interesses que se misturavam sem um propósito claro. Hoje, o kung fu me ensinou a canalizar essa energia para o refinamento técnico e mental. Cada repetição de um movimento não é apenas mecânica – é um estudo profundo, uma busca por entender os mínimos detalhes, uma meditação em movimento.
Outro ponto essencial é o princípio da neutralidade do Ving Tsun. Quando percebi como o mundo me tratava diferente com ou sem o rótulo de "autista", entendi que o problema nunca esteve em mim, mas na forma como as pessoas projetam suas próprias limitações sobre os outros. No kung fu, aprendemos a não reagir emocionalmente ao que nos ataca, mas a redirecionar a energia a nosso favor. Esse princípio, quando aplicado à conduta, nos ensina a não sermos reféns dos julgamentos alheios.
O que antes parecia um peso, agora vejo como um diferencial. Sem o autismo, eu não seria quem sou. Sem o kung fu, eu não teria aprendido a enxergar isso. O verdadeiro aprendizado não está apenas em saber lutar ou se defender, mas em usar o kung fu para lapidar a si mesmo, como um artesão molda a pedra bruta até revelar sua verdadeira forma.
Afinal, não há kung fu maior do que aprender a ser, de fato, quem se é.
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