Buscando o Meio
Semana passada, confesso, me vi longe desse meio. Tive uma crise pesada, daquelas que só quem vive no espectro do autismo entende. Fiquei fora de combate quase uma semana, e olha... não foi bonito. Emoções bagunçadas, o corpo estranho, e a cabeça, então? Uma verdadeira tempestade. Nessas horas, o kung fu deixou de ser só arte marcial e virou abrigo. Um refúgio silencioso e firme.
É engraçado como o Siu Nim Tao, uma forma que muitos tratam como “simples”, ganhou um novo significado pra mim. Cada movimento virou um ponto de ancoragem. Cada respiração, um retorno. Não ao controle — porque nessas horas ele é um luxo —, mas à consciência. À presença. Ao meio.
Sabe qual é a parte mais difícil dessas crises pra mim? A emocional. Eu fico irritado. Tipo, irritado mesmo. Uma fúria muda que queima por dentro. E aí vem o dilema: como passar por isso sem atacar quem tá perto? Sem machucar quem me ama?
Antigamente eu me isolava. E, olha, até funcionava. Era como me esconder numa caverna pra esperar a tempestade passar. Mas, com o tempo, percebi que isso me protegia... mas não me fortalecia. Eu não aprendia nada ali dentro. Só sobrevivia. E kung fu não é só sobreviver — é viver com intenção, com presença, com arte.
Hoje, me arrisco mais. Me lanço no desafio de buscar o meio mesmo quando tudo me empurra pros extremos. E foi por isso que, no último sábado, voltar ao Mo Gun teve um sabor especial. Foi como voltar pra casa. Estar ali, com minha família kung fu, respirando junto, trocando energia, trabalhando distância... fez tudo se encaixar. Porque a distância que treinamos com o parceiro é a mesma que às vezes precisamos encontrar dentro da gente.
Às vezes o outro tá perto demais, às vezes é a raiva que invade, ou a tristeza, ou o medo. Mas o treino nos lembra que há um ponto onde a força e a leveza coexistem. Onde dá pra estar firme sem ser duro. Onde dá pra sentir sem se perder. Onde dá pra existir sem se machucar — nem machucar o outro.
Esse é o meio.
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