Breve Reflexão Sobre A Minha Guerra


Escrever esse texto já começou sendo um desafio. A verdade é que o simples ato de organizar pensamentos e me expor para o mundo me deixa tenso. Relações sociais sempre foram um território de campo minado pra mim. Tenho uma habilidade quase automática de analisar tudo o que é dito ao meu redor. As palavras chegam, eu recebo, decupo, crio camadas, faço conexões… E no meio dessa tempestade de pensamento, acabo me perdendo. Viro um excelente ouvinte, mas um péssimo conselheiro. Fico preso na análise, congelado na teoria.

No Ving Tsun, isso seria o equivalente à morte em combate. Pensar demais no meio da ação significa perder o momento. E perder o momento significa ser atingido.

Por isso, venho me propondo um desafio muito maior do que acertar uma técnica ou corrigir uma base: o desafio de me colocar. Me colocar no mundo, na conversa, na troca, mesmo quando não me sinto pronto. Principalmente quando não me sinto pronto.

No último sábado, minha amiga Vitória foi ao Mo Gun nos visitar. Pode parecer um detalhe pequeno, mas foi um momento especial pra mim. A presença dela me trouxe uma reflexão importante: tem gente que, mesmo sem saber, nos ensina sobre como estar no mundo. A Vitória, de um jeito muito natural, me ensina sobre relação humana. Sobre perceber sinais, escutar com o corpo inteiro e não só com a cabeça. Sobre não fugir do contato.

E é aí que entra o Chi Sao. Minha eterna luta com o giro e a manutenção da conexão. Toda vez que tento entender demais o que está acontecendo, perco o momento. Desconecto. A ação me escapa enquanto estou mentalmente tentando decifrar a matemática do toque.

Mas o Kung Fu tem sido meu campo de batalha mais honesto. É onde eu enfrento, de frente, os meus medos mais íntimos: o medo de ser inadequado, de ser insuficiente, de ser frágil, de ser confuso.

Cada giro mal feito, cada perda de conexão, cada hesitação é uma pequena guerra interna. Mas também é uma pequena conquista, porque agora eu percebo. Agora eu escolho continuar.

O Ving Tsun, pra mim, é isso: uma prática de presença. De encontrar o equilíbrio entre o conforto e o desconforto. De me colocar no jogo mesmo quando a cabeça grita pra fugir.

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